Embate entre Moraes e Mendonça agrava crise no STF; entenda o caso Banco Master

Mensagens de Daniel Vorcaro, questionamentos sobre a condução das investigações e acusações entre ministros levaram Fachin a intervir no caso

05/09/2026

Por @ClicdoVale | contato@clicdovale.com.br
Em Política

A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou força nesta semana após a divulgação de um relatório da Polícia Federal com mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, envolvendo integrantes da Corte e outras autoridades.

O sigilo do documento foi retirado na terça-feira, dia 1º, pelo ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo. O material reúne mensagens, documentos e outros dados obtidos pela PF durante a Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o banco.

Entre os principais pontos revelados estão os contatos entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. As mensagens analisadas pela Polícia Federal apontam ao menos seis encontros entre os dois ao longo de 2024 e 2025.

A aproximação teria sido intermediada pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que repassou a Vorcaro o contato de Moraes no fim de 2023. O primeiro encontro identificado ocorreu em 2 de fevereiro de 2024, em um jantar na casa de Faria, com a presença das esposas. Outros encontros aparecem nos registros nos meses seguintes.

Em março de 2025, por exemplo, Vorcaro afirmou ao então diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza que estava com Moraes. Na ocasião, segundo as mensagens, o banqueiro afirmou que o ministro iria chamar “Paulo” para uma conversa. O episódio ocorreu durante o período em que o Master tentava concretizar a venda de parte do banco ao BRB.

As mensagens também mostram que Vorcaro procurou Moraes pouco antes de ser preso, em novembro de 2025, para perguntar sobre a possibilidade de uma operação policial e se deveria deixar o país. A PF conseguiu recuperar as mensagens enviadas por Vorcaro, mas parte das respostas atribuídas ao ministro não ficou disponível porque as comunicações utilizavam imagens de visualização única.

O relatório também contém referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Relação com escritório da esposa de Moraes também aparece:

Outro ponto do relatório envolve contratos entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Segundo o material da Polícia Federal, mensagens e documentos indicam que Moraes participou de alterações em um contrato de mais de R$ 130 milhões firmado entre o banco e o escritório.

O documento também registra tratativas relacionadas a um segundo contrato, de R$ 50 milhões, que envolvia a possibilidade de pagamento por meio de participações em aeronaves. Segundo informações divulgadas sobre o caso, esse segundo acordo não chegou a ser aceito pelo escritório.

Até o momento, as informações tornadas públicas não representam, por si só, conclusão de que Moraes tenha cometido algum crime. Os fatos estão sendo analisados pelas instituições responsáveis.

Mendonça também se encontrou com Vorcaro:

A crise ganhou outro componente após o próprio André Mendonça confirmar que também se encontrou com Daniel Vorcaro.

Segundo o gabinete do ministro, a reunião ocorreu em março de 2025 e tratou de uma ação envolvendo precatórios que estava em julgamento no Supremo e era de interesse do Banco Master.

Mendonça afirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, por iniciativa do empresário, e que se limitou a ouvi-lo. O ministro sustenta ainda que sua atuação posterior no processo foi contrária ao interesse defendido pelo banco.

Já durante a investigação do caso Master, Mendonça também confirmou ter colhido um depoimento de Vorcaro em seu gabinete. Segundo a versão do ministro, o ex-banqueiro alegava estar sofrendo intimidações e pediu para ser ouvido com urgência. Um representante do Ministério Público participou do ato, mas não havia integrante da Polícia Federal.

A forma como parte dessas diligências foi conduzida passou a ser um dos principais pontos de questionamento dentro do STF.

Moraes reage e acusa Mendonça:

Após a divulgação do relatório, Alexandre de Moraes pediu ao presidente do Supremo, Edson Fachin, a abertura de uma investigação contra André Mendonça.

Moraes apontou atos que considera possíveis casos de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na atuação do colega.

Segundo ele, Mendonça teria interferido na condução de investigações pela Polícia Federal, participado irregularmente de tratativas relacionadas a colaboração premiada e direcionado apurações por motivações pessoais e políticas.

As alegações envolvem as operações Compliance Zero, relacionada ao Banco Master, e Sem Desconto, que investiga fraudes envolvendo benefícios do INSS.

Entre os possíveis alvos citados no material apresentado por Moraes aparecem o próprio ministro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Um dos documentos usados para sustentar as acusações contra Mendonça, porém, afirma que seu conteúdo corresponde a uma “análise de cenário” e não possui valor probatório. O material divulgado também não apresenta cabeçalho da Polícia Federal nem assinatura de delegado.

PGR pede nulidade de relatório:

A Procuradoria-Geral da República questionou a maneira como a investigação que resultou no relatório sobre Moraes foi conduzida.

Paulo Gonet pediu a nulidade do documento e sustentou que André Mendonça teria ultrapassado os limites de atuação de um magistrado na fase pré-processual ao determinar aprofundamentos envolvendo pessoas específicas sem provocação do Ministério Público.

A PGR também questionou a continuidade das diligências depois do surgimento de informações envolvendo autoridades com foro por prerrogativa de função.

No parecer, Gonet afirmou que houve um esforço para buscar elementos de eventual envolvimento de Moraes em ilícitos e argumentou que não cabe ao juiz exercer papel acusatório ou realizar diretamente investigações pré-processuais.

Nesta sexta-feira, dia 4, a PGR deu mais um passo e informou ao Supremo que irá apurar possíveis interferências na elaboração do próprio relatório da Polícia Federal. O órgão também solicitou esclarecimentos à PF sobre as circunstâncias em que o documento foi produzido.

Fachin intervém na crise:

Com o aumento da tensão, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a condução institucional do caso.

Na quinta-feira, dia 3, Fachin abriu um procedimento e deu prazo de cinco dias úteis para que Alexandre de Moraes, André Mendonça, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentem esclarecimentos.

Um dos pontos a ser analisado é se foram respeitadas as regras aplicáveis quando uma investigação encontra informações que podem envolver magistrados.

Na sexta-feira, dia 4, Fachin também retirou do inquérito das fake news o pedido apresentado por Moraes para investigar Mendonça. O material foi transferido para o mesmo procedimento que já analisa a controvérsia relacionada ao relatório da PF.

Fachin deu prazo para manifestação da PGR e de Mendonça e ressaltou que as providências não significam que o Supremo já tenha decidido pela abertura de uma investigação ou reconhecido a procedência das acusações.

O presidente do STF também indicou que as questões envolvendo os dois ministros deverão ser analisadas pelo plenário da Corte. Nesta sexta, Fachin voltou a defender uma resposta institucional à crise e afirmou que não haverá precipitação, mas também não haverá omissão.

O que acontece agora?

Neste momento, não há decisão definitiva do Supremo sobre a validade do relatório que revelou as mensagens de Vorcaro nem sobre a abertura de investigações contra Moraes ou Mendonça.

As manifestações solicitadas por Fachin deverão servir de base para os próximos passos.

O plenário do STF poderá ser chamado a decidir sobre a validade dos atos praticados durante a investigação e sobre eventuais apurações envolvendo integrantes da própria Corte.

O caso Banco Master, que começou como uma investigação sobre suspeitas de fraudes no sistema financeiro, passou assim a provocar uma das mais graves crises internas recentes do Supremo, com questionamentos sobre relações entre autoridades e investigados e sobre os limites de atuação de ministros, Polícia Federal e Ministério Público.

Inscreva-se em nosso novo canal do YouTube: ACESSE AQUI!

Clique AQUI para receber notícias de graça pelo WhatsApp: ENTRE NO GRUPO VIP DO CLIC