Meio Ambiente e Sustentabilidade por Márcio Silva do Amaral

O que revelam as árvores

Quem anda pelas ruas das cidades do Vale do Taquari talvez nem perceba o quanto uma árvore faz parte da vida cotidiana. A sombra no verão, os pássaros no começo da manhã, o ar fresco próximo a uma praça e até aquele velho ipê, ou figueira, que serve de referência para indicar onde alguém mora. Muitas vezes, só percebemos a importância de uma árvore depois que ela desaparece.

Mesmo assim, ainda existe quem enxergue uma árvore quase como um estorvo. As folhas caem na calçada, as raízes podem levantar o piso, a copa esconde uma fachada ou ocupa o lugar onde alguém pretende construir. Aos poucos, aquilo que levou décadas para crescer passa a ser visto apenas pelo incômodo que provoca.

Um exemplo recente ocorreu em Lajeado, onde oito tradicionais ipês-amarelos da Avenida Alberto Müller, no Bairro Alto do Parque, sofreram uma poda drástica. Também me chamam a atenção duas situações ocorridas em Taquari. Na duplicação de um trecho (1,3 km) da Avenida Aleixo Rocha da Silva, o projeto não contemplou o plantio de uma única árvore. No canteiro central foram instalados apenas estruturas de concreto e postes metálicos de energia.

Outro exemplo, ainda mais recente, ocorreu na Avenida 20 de Setembro (600 m), no bairro Colônia Vinte de Setembro. As árvores existentes no local foram retiradas e, até então, não substituídas. Em seu lugar permaneceram postes de energia, canteiro central de concreto e pavimentação com bloquetes.

Situações como essas despertam uma pergunta importante: até que ponto estamos realmente tentando resolver um problema e até que ponto estamos simplesmente escolhendo a solução mais fácil?

Há ainda outro aspecto que pouco contribui para essa discussão. A preservação ambiental acabou sendo colocada, muitas vezes, no meio de disputas políticas e ideológicas. Mas árvore não deveria ter lado político. Água limpa também não. Solo protegido, áreas verdes e uma cidade agradável para viver são interesses que dizem respeito a todos nós.

Isso não significa que toda árvore precise permanecer onde está para sempre. Algumas adoecem, outras podem oferecer risco de queda e há situações em que interferem em redes elétricas, construções ou serviços públicos. Nesses casos, uma avaliação técnica pode indicar poda, manejo ou até mesmo a retirada. O corte, porém, deveria ser a última alternativa, não a primeira.

Nas cidades, a retirada contínua da vegetação cobra um preço que nem sempre aparece imediatamente. As ruas ficam mais quentes, aumenta a sensação de abafamento, diminui a sombra e a água das chuvas encontra cada vez mais concreto, asfalto e telhados pelo caminho. Com menos solo protegido e menos vegetação, aumenta também o escoamento superficial da água.

Para o Vale do Taquari, essa discussão tem um significado especial. Nossa região já sofreu duramente com enchentes, enxurradas, deslizamentos e processos de erosão. Evidentemente, nenhuma árvore, isoladamente, seria capaz de impedir acontecimentos dessa dimensão. No entanto, a forma como ocupamos o território, impermeabilizamos o solo e preservamos encostas, margens de rios e áreas verdes faz parte de uma discussão muito maior sobre prevenção e planejamento.

Existe também uma perda menos visível. Quando uma árvore adulta desaparece, não perdemos somente madeira e folhas. Perdem espaço os pássaros que ali faziam seus ninhos, os insetos que participavam daquele pequeno ecossistema e até as pessoas que aproveitavam sua sombra. A paisagem muda. A cidade fica um pouco diferente.

Talvez seja justamente isso que precise mudar: o nosso modo de olhar.

Antes de pedir que uma árvore seja derrubada porque suja a calçada ou atrapalha um projeto, vale perguntar se realmente não existe outra solução. Antes de autorizar um corte, o poder público precisa avaliar cada situação com critério. E, quando a retirada for necessária, o plantio de uma nova árvore não deveria ser apenas uma formalidade para atender a alguma exigência, mas fazer parte de um planejamento sério de arborização.

Também não basta plantar qualquer espécie em qualquer lugar. Uma boa arborização urbana leva em consideração o tamanho da copa, o desenvolvimento das raízes, a rede elétrica, as calçadas, as edificações e as características de cada rua. Quando existe planejamento, diminuem os conflitos que, anos mais tarde, acabam sendo utilizados como justificativa para novas retiradas.

Desenvolver uma cidade não significa retirar tudo aquilo que está no caminho. Muitas vezes, desenvolvimento é justamente conseguir adaptar o caminho àquilo que vale a pena conservar.

Nossos avós plantaram árvores sob cuja sombra talvez nem tenham descansado. Muitas das grandes árvores que hoje admiramos foram deixadas por alguém que conseguiu pensar um pouco além do seu próprio tempo.

Talvez esteja aí uma boa maneira de decidir o que fazer com as árvores que ainda temos em nossas cidades: pensar não apenas no espaço que ocupam hoje, mas na falta que poderão fazer amanhã.

Márcio Silva do Amaral

Engenheiro Ambiental
CREA/RS 270848

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